PANELAS E A BANALIZAÇÃO DO MAL

É mais simples do que parece, já que vivemos isso diariamente na rua, nas feiras, em casa, no trânsito, nas escolas e permitimos que o mal ...

Publicado em 03/04/2017 | Por Pierre Logan (Colunista)
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É mais simples do que parece, já que vivemos isso diariamente na rua, nas feiras, em casa, no trânsito, nas escolas e permitimos que o mal causado por outros em nós ou o mal em nós atirado nos outros torne-se trivial, corriqueiro, banal. Esse não é um problema exclusivo de Panelas, mas uma marca que, infelizmente, vem se tornando uma de suas características próprias. Como falei em outros textos, a oposição panelense tem extrema incompetência para fazer a coisa certa e o grupo que desgoverna a cidade tem competência demais para fazer o que é errado. É essa e não outra a principal diferença entre os dois grupos.

Tudo começa com uma filósofa de origem Judaica nascida em 1906 na Alemanha, chamada Hannah Arendt. Por ser judia passou apuros durante os horrores nazistas e como muitos também passou pelos campos de concentração. Terrível. Conseguiu fugir, ficou em Nova York, se tornou jornalista e professora da New School of Social Research.

Veio o fim do nazismo e foram criados tribunais a fim de julgar os crimes cometidos pelos nazistas. Em 1960 um chefe do nazismo foi capturado aqui na nossa vizinhança, em Buenos Ayres (estava foragido). Era ninguém menos que Adolf Eichmann, um dos “colegas mais próximos” de Hitler. Hannah foi chamada como jornalista para cobrir o julgamento. Desse acontecimento a filósofa escreveu um livro chamado Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal (1963).


Ela ficou impressionada como o algoz que deportou judeus durante boa parte de sua vida achava normal e alegava apenas está cumprindo ordens. Encaminhava judeus para morte, mas acreditava ser inocente. Era apenas um servo obediente do Estado nazista. Analisado por psicólogo o diagnóstico foi ainda mais impressionante: “Alguém normal, bom pai de família, filho exemplar, irmão dedicadíssimo. Hannah chegou à conclusão de que aquele sujeito era apenas um indivíduo comum que era incapaz de compreender o ponto de vista do outro. Ela iniciou estudos profundos e sérios e entendeu que aquele era um ser humano qualquer que perdeu a capacidade de distinguir o bem e o mal. Arendt observou dois aspectos da sociedade de massa: superioridade e a superfluidade. Quanto mais superficial alguém for, é mais provável que ele ceda ao mal. O mal é banal, não é comum, mas vivenciado como se fosse, é extremo mais não tem profundidade nenhuma. Sendo raso, se espalha com facilidade nas pessoas que não refletem, não pensam e não percebem o significado dos próprios atos. O mal torna os seres humanos supérfluos.

Muito bem, chega de história da filosofia (quem quiser ver mais compre o livro – vale a pena). Chegamos finalmente ao ponto em que falamos de Panelas, se é que saímos algum momento dele. Se você não percebeu ainda não temos campos de concentração para judeus e nem um governo nazista. Temos um governo sergianista que concentra as pessoas em pontos específicos para pegar sua dose diária de água (te lembra algo?). Sim, um mal banalizado, pois muitos já defendem seus algozes dizendo que “é assim mesmo” e que não tem jeito. Assim como ninguém perde o sono porque a prefeitura, pelo jeito, vai passar mais vinte anos sem realizar concurso público. Outro mal que se torna comum. Muitos ainda esperam a campanha eleitoral para se divertir e ofender o cidadão mais próximo que pense diferente (banalmente quadrienal isso). Quem vai dizer que procurou um médico no hospital e não achou e quando não teve atendimento não bateu, junto com um sentimento de indignação, um sentimento de que “é assim mesmo”?

Saber que um ex-prefeito não eleito, manda numa prefeita eleita é normal. Saber que um cara que não é absolutamente nada da prefeitura (nas palavras dele mesmo) pode arrumar um “parecer jurídico” (mamãe me acode!!!) para parar uma obra que limparia a barragem é mais que normal. Ouvir asneira desse mesmo indivíduo durante mais de uma hora e achar normal é comum. Comumente tratado como burro o povo se acostumou de tão trivial que é o tratamento. Será que é normal carregar água no lombo e receber a conta pelos correios? Será que é tão normal ter medo de alguém que na condição de ser humano não tem nenhum poder além do que você acredita (erradamente) que ele tenha? Será que é tão comum assim ser comum? Somos tão banais assim de propósito?


Imaginar que isso vem se repetindo e que se repetirá ano que vem e será recorrente durante muito tempo se algo não for feito é triste. A solução não é difícil, mas precisa de algo raro: CORAGEM! Os governos mantêm sua pusilanimidade porque acredita que nada mais sério vai acontecer. Que não haverá consequências. Que não haverá reprovação. Que tudo ficará normal quando chover. Que o sentimento de indignação do povo será lavado e levado pela chuva. Porque foi assim que as coisas sempre foram por aqui. Banalizamos a negação dos nossos direitos. Banalizamos o mal e permitimos que ele fosse usado com doses homeopáticas em nós. A solução é pensar, falar e agir. A solução e deixar patente, claro, notável e sem sombra de dúvida que não se admite mais. A solução é fazer do mal algo raro, já que o que é mais raro hoje em dia é amar o próximo. Fazer o bem é raro. Ajudar é raro. Solidarizar-se com os menos favorecidos é raro. O mal sim é que é muito banal e está em todo lugar, pois, segundo Hannah, se espalha com facilidade. 

Coluna Política // Por Pierre Logan



Formando em Direito, Licenciando em filosofia, possui formação em Direito Eleitoral, Administrativo, Fundamentos do Direito Público, Ciência Política e Teoria Geral do Estado. Compositor, gravou no final de 2015 o disco Crônicas de Um Mundo Moderno. Atualmente atua na área jurídica e também é colunista do Jornal SP em notícias. OAB-SP 218968E.

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