Silêncio dos inocentes

"Os professores sempre me disseram que questionar era algo bom."
Na ultima quinta-feira comemoramos o dia dos professores. Como por ironia do destino o Governador do Estado, Paulo Câmara (PSB), apareceu em Panelas para inaugurar uma reforma feita em uma escola no dia seguinte. Alguns professores aplaudiram, tiraram fotos, filmaram e deram uma aula de atuação para os alunos do EREMPA.

Costumo criticar os políticos e elogiar os professores. Desta vez não será diferente. Uma das coisas que mais gosto de fazer nessa vida é ouvir gente inteligente falando. Aprendo muito com isso. Entretanto, dessa vez, aprendi com o silêncio dos profissionais da educação. Os aplausos falaram ainda mais alto que o silêncio.

Os alunos seguiram os seus mestres no silêncio e nos aplausos. Aprenderam que por mais que façam promessas de adutora (para 2015), mintam quanto ao reajuste do salário dos professores, falhem em quase todos os pontos da Segurança Pública e cortem parte da verba da merenda (aconteceu no EREMPA); sempre serão aplaudidos. Basta se candidatar e se eleger.

"A sala de aula pode ser um lugar onde as pessoas aprendem a: 'sentar, se acomodar e obedecer'."
Imediatamente percebi meu erro. Ignorante que sou sempre achei que educação fosse uma ação no sentido de desenvolver as faculdades psíquicas, intelectuais e morais de um ser humano. Mas essa sexta-feira foi uma aula de vida, pois acordei do meu devaneio e lembrei-me da aula de outro mestre que dizia que a sala de aula pode ser um lugar onde as pessoas aprendem a: “sentar, se acomodar e obedecer”. Isso explica porque estudávamos tanto para entender o que eram cadeias carbônicas (cai no vestibular) e nunca nos questionavam sobre a função de um governador, deputado etc.

Não aguentei e fui dar mais uma sapeada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Não achei explicação. Adentrei nos escritos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica. Nada. Invadi o que encontrei sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (aquele que, segundo o TCE, Sérgio Miranda não aplicou os recursos corretamente). Não havia nenhuma pista, vestígio, indicação, pegada, indício, rasto, rastro, resquício ou qualquer outro sinônimo, que aprendi com meus professores, de um sinal de algo que me fizesse entender a postura de alguns profissionais de uma das classes mais exploradas deste nosso país.

Inconformado por não ter ouvido relatos de vaias ou pelo menos de perguntas sobre as promessas que não foram cumpridas decidi reler o artigo de quinta-feira da minha amiga Sheila Alves. Percebi que ela havia antecipado tudo o que os professores gostariam de dizer: “políticos que agridem diariamente o professor”. Essas palavras vindas de uma professora no dia dos professores um dia antes do “silêncio dos inocentes” perfuraram meus pensamentos como balas. Eu estaria louco? Ora, às vezes é preciso ser louco para dizer o óbvio. No estalo das mãos que reverberaram palmas vi a agressão aos princípios mais naturais do ser humano: a autodefesa. Professor agredindo professor. Não com os cassetetes dos policiais de Curitiba, mas com uma postura inadequada diante dos agressores. O governador que não cumpri promessas e o prefeito que não aplica o mínimo que a Constituição exige na educação (ver relatório do TCE). Os inocentes professores. Esses que sempre são culpados quando a educação está indo mal, esses que nos fazem questionar até descobrirmos o problema; não questionaram, não levantaram a mão para perguntar. Apenas ficaram em silêncio.

Não houve questionamento sobre o motivo da inauguração de uma reforma de uma parte de uma escola que estaria pronta desde o início se o prefeito Sérgio Miranda não tivesse transferido o EREMPA de um prédio pronto (perto da rodoviária) para um prédio que não estava pronto. Não perguntaram o motivo de cortar parte da verba da merenda dos alunos se o próprio governador diz que Pernambuco está tão bem. Ninguém perguntou: “Por que estamos comemorando uma reforma de um prédio agora se saímos de um prédio pronto?”. A pior parte seria se fizéssemos os cálculos e descobríssemos que a verba da reforma veio do governo anterior e não do de Paulo Câmara. Ora, se a obra começou ano passado e Paulo Câmara só assumiu em janeiro de 2015, como ele poderia dizer que é “obra” do governo dele?!

Lembro-me de que estudava na Escola João Timóteo de Andrade (na terceira ou quarta série); o prefeito Sérgio Miranda prometeu uma quadra para nossa escola. Hoje estou com 28 anos, passando pela segunda faculdade e este ano prometeram a mesma coisa. Penso que a verdade seja o rosto que Deus nos deu e que devemos honrá-lo parando de usar máscaras. Quando foi que questionar os políticos sobre nossos direitos se transformou em algo tão desprezível?

Os professores sempre me disseram que questionar era algo bom. Questionar não era uma falta de educação. Dizer que algo errado era errado era necessário e recomendável pelos mestres. Não aceitar tudo da maneira que falavam sem se questionar era algo considerado necessário. Apoiar ou colaborar para com coisas erradas era algo passível de correção imediata. Naquela época os professores podiam reprovar.

Alguns professores não apareceram na “inauguração”. Esses estão de parabéns. Um protesto silencioso se contrapondo aos aplausos de conivência é uma ação das mais dignas e poéticas que se pode imaginar. Talvez se a maioria ficasse em casa, o governador se questionaria sobre suas ações e, percebendo sua falha, tentasse concertar. Como fazemos quando tiramos notas baixas. Freud (1856 – 1939) nos ensinou que o trauma ensina e que a reprovação pode ser construtiva em alguns casos.

Hoje não se fala mais em reprovação (se é que me entendem). Agora vamos esperar que as outras promessas não sejam cumpridas. Vamos falar mal de políticos o tempo inteiro e aplaudi-los quando oportuno. Vamos sorrir e receber esses grandes homens que nada fizeram de especial. Vaiar é falta de educação. Soltar Barrabás ainda é o desejo da democracia. Ano que vem teremos mais uma greve dos professores e, aí sim, vão dizer nas ruas o que poderiam ter dito na cara do governador. Pena que o governador, nesses casos, envia a polícia para “conter” os professores. Os mestres fizeram sua parte: receberam de braços abertos aqueles que sempre os trataram com punhos fechados. Os professores que tanto falam em sala de aula ensinam mesmo quando ficam em silêncio.

“A primeira fase do saber é amar os nossos professores”.
(Erasmo de Roterdã)
Este último parágrafo é dedicado apenas a meu pedido de perdão. Não quis Deus me deixar dormir com a consciência tranquila sem antes me desculpar por ter escrito algo que de alguma forma possa ofender os profissionais que mais respeito nesse mundo. Por essa razão me desculpo e afirmo que é justamente por essa imensa gratidão aos professores que escrevo. Somente por imenso respeito me permiti defender meu ponto de vista e o ponto de vista de todos os professores que apanharam, sofreram, foram esquecidos e pisoteados pelos “Paulos Câmaras” e “Sérgios” da vida. Estou pronto para enfrentar qualquer político por saber qual o meu lugar na sociedade e qual o lugar dos políticos nela. Estou igualmente pronto para aplaudir de pé os professores que se colocaram contra tudo o que é nocivo em nosso Estado, pois sei qual o papel deles na construção da sociedade. Lamento a postura de alguns e me coloco a disposição de tantos outros mestres, já que foi com um mestre chamado Erasmo de Roterdã (1466 - 1536) que aprendi que: “a primeira fase do saber é amar os nossos professores”.

Por Pierre Logan

Governador do Estado, Paulo Câmara (PSB), apareceu em Panelas
Governador Paulo Câmara e prefeito Sérgio Miranda (ao centro) e demais da comitiva dos políticos em Panelas-PE (15/10/2015).

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