ALUNOS ESCOLHENDO O QUE ESTUDAR: isso vai dar certo?

"Se eu quiser desenvolver a capacidade de escolha e de tomadas de decisões nos jovens, tenho de permitir que ele opte.” 
Foi o que disse o secretário de educação de São Paulo, Herman Voorwald, neste último sábado (06/06) ao jornal o Estadão. Ele falava sobre o novo modelo de currículo para a educação paulista, a ideia é que em 2016 os estudantes da rede estadual de ensino de São Paulo “possam escolher as disciplinas” nos dois últimos anos do Ensino Médio. Isso quer dizer que o aluno poderá eliminar de sua vida todas as matérias que detesta estudar? Calma, não é bem assim.

A proposta ainda está sendo finalizada para só então ser discutida ainda no segundo semestre. Sendo assim, os maiores detalhes desse plano ainda estão encobertos, o que não significa dizer que é um protótipo ou algo de outro mundo. Esse sistema de ensino já existe em outros países, como nos Estados Unidos, por exemplo. Lá, apesar da pluralidade de modelos educacionais resultante da autonomia das escolas frente às instâncias federais, a escolha de disciplinas é um ponto em comum. Na High school (ensino médio norte-americano) dependendo do distrito, os alunos podem escolher até dez disciplinas, dentre elas as obrigatórias, como Matemática e Inglês. O mais interessante é que algumas dessas disciplinas apresentam ramificações, como é o caso da própria Matemática, dentro dela o aluno pode optar por partes específicas como álgebra, pré-cálculo, geometria ou estatística, não precisando dedicar-se ao todo. Em Portugal o Ensino Secundário (ensino médio português) segue essa seleção de conteúdos, o sistema oferece quatro agrupamentos de conhecimento – Ciências e Tecnologias, Artes Visuais, Ciências Sócio-econômicas e Línguas e Humanidades – para que os alunos escolham em qual melhor se adéquam, é uma prévia do que encontrarão no Ensino Superior. Canadá, Alemanha e Grã-Bretanha também optaram por um modelo de educação flexível às preferências do corpo discente.

Como bem sabemos, não é porque um modelo, principalmente educacional, deu certo em outros países que terá o mesmo resultado por aqui, entretanto, não quero assinar um termo de pessimismo com essa afirmação. Acredito na vertente pedagógica que dá sustentação para mudanças como essa que acontecerá em São Paulo no ano que vem, claro, se não empacar pelo meio do caminho. Essa ideia de escola democrática, onde estudantes, professores e funcionários participam ativamente da construção educacional, não é de agora. Aliás, há uma resolução datada de 26 de junho de 1998 que já previa uma organização disciplinar semelhante à de Portugal, o problema é que a ideia nunca saiu do papel, o motivo? A ideia é boa, mas a aplicação é difícil...

“Para adquirir conhecimento real, é necessário escolher poucas áreas do conhecimento e se aprofundar nelas. O domínio de generalidades não leva a nada." (Simon Schwartzman)
Há quem diga que esses currículos ‘engessados’ que predominam hoje no Brasil deveriam ter ficado no século XX, pois não preparam os alunos para o mercado de trabalho, muito menos para o ensino superior, o que teoricamente deveria ser a prioridade do ensino médio. Simon Schwartzman, sociólogo e estudioso de educação disse que “para adquirir conhecimento real, é necessário escolher poucas áreas do conhecimento e se aprofundar nelas. O domínio de generalidades não leva a nada.” Não há como não concordar com ele, por muitas vezes nos deparamos em sala de aula com alunos que apenas ‘patinam’ na superfície das incontáveis teorias que são oferecidas no atual currículo educacional, dificilmente compreendendo a fundo muitas delas.

A meta do governo de São Paulo é incorporar gradativamente o novo currículo às escolas da rede, o objetivo é começar pelas escolas integrais, que já possuem uma grade flexível, baseada no conceito de protagonismo juvenil. Na verdade, foram as boas experiências desse modelo que inspiraram o novo currículo aberto às preferências dos alunos. E é nesse ponto que eu gostaria de chegar, essa realidade de o aluno poder escolher o que estudar, caso consiga bons resultados, pode ser expandida para o resto do país. E nós, aqui em Panelas, temos grandes chances de presenciar na prática essa revolução na educação do país, pois nosso município conta hoje com um dos modelos de escola de referência mais bem avaliados do estado de Pernambuco, o EREMPA, que nesse ano completa 10 anos de existência, mas aí já é assunto para um próximo artigo (rs). Em suma, a ideia de começar a ouvir a garotada sobre o que querem estudar é válida, principalmente no campo fértil das escolas de referência que já possuem o pé na educação do século XXI, ancorada nos quatro pilares propostos por Jacques Delors: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e o principal, aprender a ser, que integra todos os anteriores. No entanto, essas escolhas não podem ser aleatórias, e para que isso não aconteça, a integração professores, funcionários e alunos também precisa acontecer aqui, se é para ser democrático, que seja para valer. Arrisco ainda inserir nesse grupo, a nível utópico, eu sei, os pais, não custa sonhar, né?

Coluna Educação // Por Sheila Alves

Sheila Alves - Colunista sobre EducaçãoProfessora, graduada pela UPE em Letras e 
especialização em Ensino de Língua Portuguesa e suas Literaturas.
E membro fundador da Associação Comunitária de São Lázaro (Panelas-PE).

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